Anhanguera Warehouse: Claps, Divas e 909: Uma Ode ao Garage House

Era meados dos anos 90 quando nos conhecemos na cabine do club Delight, em Sertãozinho, interior de São Paulo. A amizade foi imediata, selada por uma obsessão em comum: música – e, em especial, o som pulsante do Garage.

Assim como o house carrega no nome a origem no lendário club Warehouse, o garage também é uma homenagem ao mítico Paradise Garage, de Nova York, onde o também lendário DJ Larry Levan reinava absoluto. 

No final dos anos 80 e no início dos 90, enquanto a cena de Chicago moldava o futuro da música eletrônica, Levan comandava as noites do Garage com uma mistura hipnótica de disco, soul e os primeiros rebentos da house music. O som nova-iorquino, mais melódico, impregnado de vocais gospel e soul – quase sempre interpretados por mulheres negras com origem nos corais das igrejas – contrastava com a crueza repetitiva e minimalista que emergia de Chicago.

Muito antes de iniciarmos o projeto Anhanguera, já éramos devotos do Garage e suas marcas registradas: batidas percussivas com groove solto, claps crocantes afogados em reverb, snares quebrados e repetitivos sustentados pelo kick pulsante da lendária TR-909. 

Os vocais, carregados de alma e emoção, explodiram nas pistas guiados pelas divas. Os arranjos, ritmados e cheios de personalidade, vinham embalados por pianos clássicos, Rhodes, órgãos ou qualquer chord rasgado que desse a tônica da harmonia. O garage era a vertente orgânica e visceral que emergia da disco music. Artistas como David Morales, Masters At Work, Todd Terry e K-Klass nos guiavam – presença garantida em nossos cases e sets.

Nos anos 90, o garage cruzou o Atlântico, encontrou terreno fértil no Reino Unido e ali floresceu em uma nova forma: o UK garage. Mais acelerado, com linhas de baixo sintéticas, batidas quebradas, harmonias marcadas e uma pegada mais dubby, virou febre.

Com o tempo, nos deixamos levar pela onda do french house. Os loops de disco e funk ganharam protagonismo nas nossas produções e sets, e o Garage deu lugar ao groove jackin’ de Chicago, com sua pegada mais suja e temperada pelo jazz e hip hop. 

Mas nos últimos anos, algo mudou. O garage voltou a nos chamar. Retomamos contato com novos nomes da cena como Marc Cotterell, Scott Diaz, Crackazat, Vincent Caira – e reencontramos velhos ídolos como Louie Vega e Kenny Dope (Masters At Work), que nunca saíram dos nossos radares. Essa redescoberta culminou em nosso mais recente lançamento, Into You, uma ode ao Garage que embalou nossos primeiros passos como DJs e que atualmente figura no TOP 5 da Traxsource no estilo.

Podemos dizer que voltamos às origens e o fizemos da melhor forma possível.

Por Anhanguera

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